domingo, 8 de dezembro de 2013

Ponto de Vago

O mundo é macro, dizem
Quando se olha de cima
Mas parece pouco perto do universo sacro
Guardado sob as retinas dos meninos
E das meninas.

E dizem que o mundo é micro
Aos olhos nus mortais
Mas parece ser muito mais
Quando visto pelos olhares oblíquos
Das ressacas de paz.

Só quem capta Capitú
De fato, ao Ubuntu
Se adapta.

E dizem que o mundo é são
Dentro do possível
Como se fosse plausível
De alguma tangível referência
Ver nos conjuntos complexos
E profundos
Qualquer padrão de consciência.

São é quem mora na casinha da ilusão
Pra não gritar sermão pelas pracinhas
Nem gracinhas, ou groselhas, de Lobão.

E dizem que o mundo é piada
Que tem graça por ser nada
Perto do Todo

Mas o Todo é só um nome
Não sente frio, nem sente fome
Nem sê vê boiando em lodo

Sei, pois, que é o mundo
O melhor, mesmo imundo
Que se achara em mil sóis

E que o pior que há nele
Não vem desse, nem daquele
Mas do pior que há em nós.


(Arthur Valente)

sábado, 30 de novembro de 2013

Céu de diamantes

Lembro como se fosse agora
Pois teus ensinamentos guardo em mim
Como se guarda a própria vida
E dizia-me assim, a minha querida
Pra ter paciência de crer que o fim
É só um ciclo terminado que, sem demora,
Há de se ver reiniciado num outro
Menos ruim

Até que o melhor venha de vez
Não por ser, mas porque nos tornamos
Apesar de nossa ânsia, através do anos
Maiores em nossa pequenês
Desconstrutores de nossas intolerâncias
E sabotadores de nossa arrogância
Infantil e torpe de pequeno-burguês

Chega a hora, creio eu
Sem receio mais de ter esperança
De colhermos a bonança
Que estes tempos de tempestade
Apesar do cansaço e do alarde
Em meio a cruel cidade
Fortaleceu

Minha rainha retorna ao trono
Depois de tanto lembrar como é ser da plebe
Volta também, um pouco mais, meu sono
Ao conceber que, de novo,
Das cinzas elas se ergue.

Seja bem-vinda Luz do latim
Que venha me iluminar como sempre fez
E prometo a ti, assim como a mim,
Que se juntos caminharmos mais uma vez
Os ciclos serão fracos, tal como as tempestades
E não haverão mais grades
Contra a nossa alegre e louca
Lucidez.


(Arthur Valente)

Dos Cantos Mitológicos

Dos impérios passados
Maiores que os titãs, em pleno alarde
E mais escuras que o reino de Hades
Erguem-se as muralhas de fúria

Pois são, num negro aglomerado,
Os povos unidos e irados
Contra os reis auto-intitulados
Prestes a morrerem afogados
Em suas próprias injúrias

E é Eros que lhes inspira a união
E vêm gritando, loucos, os coros de Marte
Propagando, roucos, por toda a parte
Palavras de ordem e caos pra que a tirania
Caia morta no chão

E espalha-se, a revolta, por toda a terra
Com mais bravura que os antigos heróis
Mais brilhante que mil sóis
É a alvorada da nova era

E hão de cair os comandantes
Os falsos profetas maledicentes
Com suas verdades confusas
E serão não mais que pedra
Como se olhassem nos olhos de serpente
Da própria medusa

E num avante, toda a gente
Vai tomar os postos seus
Num negro bloco de dimensão gigante
Mais forte e temido que qualquer deus

E cai o representante do deus hebreu
Delirante em sua própria má fé
E se ouve dos confins da massa ralé
Que chegara o tempo de Prometeu.


(Arthur Valente)


domingo, 17 de novembro de 2013

Arte em Conjunto - Frito e Cru


Cores fortes em fundo roxo
Visão mesclada e tonta em tons
Corpo leve e ombros frouxos
Dança a imagem como quase som

Mata virgem, experiente
Sintonia de ambiente
Que me rende ao ter vertigem
Pois desnorteia de tão bonita
E religa, pois transcende

E como grita a paz ao silenciar
A mente pouco antes barulhenta
Pela fisionomia violenta
Que a cidade tanto faz a vir
Por ela se manifestar

E como grita o mundo por arte
Se a arte o é, sem tirar nem por?
Muda-se a linguagem para expor
Como se cortássemos o sabor em partes
A la carte
Pra quem tem fome, e todos têm,
De beleza e de amor

Oremos só à mãe maior
Que ela se segure em pé
Contra a má fé de nossa torpe intervenção

Pois não fosse o que ela é,
Sendo em todo, em si, o melhor
Nós não seríamos, não
Nem eles algum dia serão


(Bárbara Lopes e Arthur Valente)

Recomendado: www.flickr.com/babilonia (Bárbara Lopes)

sexta-feira, 15 de novembro de 2013

Mudança de Script

Fecham-se as cortinas, intervalo
Saem todos, menos um
Muda a cena, zum-zum-zum
Vaza o velho pelo ralo

Entra o novo num segundo
Muda o mundo, fica a vista
Olha tudo como autista
Passa o ser a ser fecundo

Planta a praia, o vento, o sol
Colhe calma, amor e fé
Flui o íntimo como a maré
E pesca a paz sem ter anzol

Capoeira joga em dança
Luta, aprende e cai na areia
Pulsa o mar vermelho em veias
E cantarola a vida mansa

Desce do palco, vai pra rua
Usa e abusa a pele nua
Acha graça no ranzinza
Vai do cinza ao prata-lua

E renasce o protagonista
Ganha brilho e vivência
Vai e conquista experiência
Pra fazer da selva-de-pedra, pista
De malandro em essência
De poeta na potência
E com cadência de sambista.

Saravá!

Viva a vida!
Viva o maior do teatros que permite
A todos serem artistas
Pois só nela a história resiste
Sem precisar de roteirista.


(Arthur Valente)


quinta-feira, 31 de outubro de 2013

Arte em Conjunto - Magreza de Alma




Canseira da vida que morre
Depressão anda em alta
Magreza sofrida na alma
Sentido de calma corre em falta

Falta amor pra nutrir o ser
Falta o elixir que socorre a dor
Falta cor pra que me ponha a crer
Que não serei absorvida pelo mundo exterior
Ou, ao inverso,
Por meu profundo universo interior.

Verso em desenho
E me empenho, pois só peço
Que meu sofrer morra imerso
No fundo de esperança que ainda detenho.


(Ananda Trezena e Arthur Valente)

terça-feira, 29 de outubro de 2013

Aula de Biologia

Voa, passarinho
Beija a flor e traga o cálice
Pra servir de táxi ao poder criador
Que a mãe natura fornece no ápice
Invariável de todo o seu amor.

Vem semente, cai do alto
Mas vai longe do berço que lhe era, antes, tranquilo
Pois, se ficas perto da tua inicial protetora
Progenitora
Será ela a autora de tua morte precoce
Sem vacilo
Mas acalma-te, pois basta do esquilo
Uma enterrada entre longos saltos
E um desapego da posse
Que tua força encantadora resiste.

E vira agente da vida, sob a úmida terra
E até merda, em ti, virará poética
Para te adubar e te fazer ascender na mais perfeita estética
E continuar o ciclo caótico, mas ordenado em grandeza profética
Que, a não ser pelo bicho violento que porta a serra,
Nunca se encerra.



(Arthur Valente)