Não ligava muito ao fato
De que durmo como pedra e,
Como pedra, não sonho quando durmo
Porque antes sonhava acordado
Mesmo e apesar do mundo medonho
Que em meu entorno se põe exclamado
E mesmo e apesar do céu acinzentado
Que encobre o sol pacato
Durante o período diurno
Mas ultimamente parece que me empedrei por completo
Tanto que até faço uso de palavra nova e recém-inventada
Porque me falta vocábulo pra conceber onde, como e quando, neste trajeto
Aconteceu de minha sede de sonhar ter sido soterrada
E nem ao menos eu poder saber se encoberta foi pelo concreto
Acho que não.
Acho que talvez deva mudar de ramo, sair da arte
Viver de objetivos plausíveis, de conta no banco
De mentiras bem contadas, de cegueira auto-imposta
Pra nadar num rio de bosta
Achando que é isso mesmo, sei lá,
Que faz parte.
Mas não consigo..
Reza a lenda, diz o poeta, o profeta, tanto faz
Que quando se dá um passo a frente, o único problema
É que não se pode voltar mais atrás
E ai se vive o dilema que fica ali posto
De não saber se é melhor viver ignorante e abraçar o sistema
Ou saber que existe, ter a consciência como lema
E morrer de desgosto.
Mas, veja, mundo feroz, hostil e doente
Que nem todo o mundo é gente, quando vista de cima
Que nem todo o mundo pode escolher ignorar teu discurso prepotente
A qual fazes e desfazes, cria prédios, cria cidades, quebra o clima,
Pra deixar a ti mesmo, ó grande entidade,
Sempre forte e potente.
Dane-se! Quer saber?! Se até os sonhos me roubastes,
Vou viver de esperança, de inspiração, de resistência e conhecimento
Porque sei que esses quatro estandartes
Não importa o tempo, o espaço, nem o momento
Só podes tomar de mim se, enfim,
Me matares.
E digo já que não tenho mais medo da demência
Da repressão, do tormento nem da tua tão amada e tentadora ganância
Tenho medo é de ter medo da tua face e, numa temerosa incoerência,
Ver em ti alguma segurança.
Morro de fome ou do que tu quiseres me matar
Mas morro de consciência tranquila
E te garanto, ó santo patriarca da família
Que antes do fim ainda volto a sonhar.
(Arthur Valente)
quarta-feira, 17 de setembro de 2014
sábado, 6 de setembro de 2014
Dos Testamentos
Começo este relato-confidência
Anunciando de forma clara em tom de verdade
Que espero ter da vida ainda muitas reticências
Mas que sei que o ponto final fica à cargo da casualidade
Queria dizer que, apesar da pouca idade,
Carrego na memória e no presente já certa vivência
E digo tal coisa com tanta propriedade
Porque já tanto passei desespero, quanto exalei felicidade
E que mesmo aglomerando tantas e tantas presenças
Explodi mais de uma vez de saudade
Queria aproveitar o momento de inspiração
Pra versar sobre o que a mim faria sentido
De acordo com o tudo que sou e tenho vivido
Caso meu espírito perdesse o vestido
Ao qual nomeio como corpo, ou projeção
Ao invés de choros, velas e nostalgia
Gostaria eu que meu próprio velório fosse celebração
Que, regado à célebre batucada provinda da Bahia,
Todos os presentes, juntos, entoassem coros até o nascer do dia
E que enchessem-se de cachaça à revelia
E um feijão preto bem feito pra fim de sustentação
Dando a meu pai Ogun, mestre da simpatia e da rebelião
Uma noite que, ao invés de silenciosa e fria,
Fosse quente, de folia e de célebre oração
Minha consciência e meu espírito já descolados
Frente a uma visão como a que projeto
Poderiam, então, amansados
Fazerem-se livres por completo
E sem a menor preocupação
No fim, gostaria de ser cremado a céu aberto
E, caso sobrassem restos de minha ex-materialidade em decomposição,
Que fossem enterrados sob a selva de concreto
Da qual fui filho tanto desafeto quanto dotado de paixão
No mais, antes de tudo, que sejam dadas as partes de mim que servirem
Para que outros, ou outras, possam persistir
No ato de curtirem
Um pouco mais do que essa vida possa lhes servir.
E já digo, de antemão, que sou e espero ainda poder
Ser grato pelo tudo o que por aqui verei e vi
E principalmente pelos, e pelas, que por aqui
Tive o privilégio de conhecer.
Asé.
Até quando puder, aonde e a quem.
Amém.
(Arthur Valente)
Anunciando de forma clara em tom de verdade
Que espero ter da vida ainda muitas reticências
Mas que sei que o ponto final fica à cargo da casualidade
Queria dizer que, apesar da pouca idade,
Carrego na memória e no presente já certa vivência
E digo tal coisa com tanta propriedade
Porque já tanto passei desespero, quanto exalei felicidade
E que mesmo aglomerando tantas e tantas presenças
Explodi mais de uma vez de saudade
Queria aproveitar o momento de inspiração
Pra versar sobre o que a mim faria sentido
De acordo com o tudo que sou e tenho vivido
Caso meu espírito perdesse o vestido
Ao qual nomeio como corpo, ou projeção
Ao invés de choros, velas e nostalgia
Gostaria eu que meu próprio velório fosse celebração
Que, regado à célebre batucada provinda da Bahia,
Todos os presentes, juntos, entoassem coros até o nascer do dia
E que enchessem-se de cachaça à revelia
E um feijão preto bem feito pra fim de sustentação
Dando a meu pai Ogun, mestre da simpatia e da rebelião
Uma noite que, ao invés de silenciosa e fria,
Fosse quente, de folia e de célebre oração
Minha consciência e meu espírito já descolados
Frente a uma visão como a que projeto
Poderiam, então, amansados
Fazerem-se livres por completo
E sem a menor preocupação
No fim, gostaria de ser cremado a céu aberto
E, caso sobrassem restos de minha ex-materialidade em decomposição,
Que fossem enterrados sob a selva de concreto
Da qual fui filho tanto desafeto quanto dotado de paixão
No mais, antes de tudo, que sejam dadas as partes de mim que servirem
Para que outros, ou outras, possam persistir
No ato de curtirem
Um pouco mais do que essa vida possa lhes servir.
E já digo, de antemão, que sou e espero ainda poder
Ser grato pelo tudo o que por aqui verei e vi
E principalmente pelos, e pelas, que por aqui
Tive o privilégio de conhecer.
Asé.
Até quando puder, aonde e a quem.
Amém.
(Arthur Valente)
sexta-feira, 5 de setembro de 2014
Oração à Bonança
Deságua o mundo em nosso entorno
Jogados estamos sem refúgio, nem resguardo
Olho-te o rosto molhado
E penso que a chuva não é mais que adorno
Frente ao nosso choro desenfreado
E era claro, que em meio ao breu
Haveríamos, finalmente, de desnudar
Aquilo que entendemos, individualmente, como eu
Pra que o nós tomasse lugar
Depois que passara a tormenta
Finalmente pude confiar em teus dizeres
E finalmente tu me compreenderas os atos
E percebemos, penso, que apesar da forma violenta
O conteúdo é, no centro, amor do mais fino trato
E na margem a explosão mais sincera dos prazeres
Em teus olhos de verde-água doce
Cai de cabeça e fui nadar dentro de ti
Afoguei-me em tua história, fosse ela qual fosse,
E notei que em teu corpo, minha alma fundi
És a consciência viva de um deus africano
Mas a tua projeção carrega um traço germânico
E vejo que mesmo em teus movimentos mais mecânicos
Há um espaço de vida oceânico
No qual nadaria a perder de vista mais de um ano
Encanta-me a tua fala concisa e empoderada
Conforta-me o teu jeito meigo de tratar quem amas
Fortifica-me a tua existência gigante e inflamada
E me excita teu saber em agir na cama
Cada parte tua é Sol do mais brilhante
Cada toque é explosão atômica de gozo
E mesmo quando expurgas o que é, a ti, mais angustiante
Vejo em ti o retrato vivo de um ser tão maravilhoso
Como jamais havia visto antes
Espero que daquela noite de tempestade
Venham frutos firmes e adocicados como a tua fala
Pra que o choro, numa próxima, seja só de saudade
E pra que sejamos, um do outro, amuleto e mandala
Deixando para o quarto, cozinha, chuveiro e sala
E não mais para uma quase-vala
Todo o, não mais doloroso, mas prazeroso alarde.
(Arthur Valente)
Jogados estamos sem refúgio, nem resguardo
Olho-te o rosto molhado
E penso que a chuva não é mais que adorno
Frente ao nosso choro desenfreado
E era claro, que em meio ao breu
Haveríamos, finalmente, de desnudar
Aquilo que entendemos, individualmente, como eu
Pra que o nós tomasse lugar
Depois que passara a tormenta
Finalmente pude confiar em teus dizeres
E finalmente tu me compreenderas os atos
E percebemos, penso, que apesar da forma violenta
O conteúdo é, no centro, amor do mais fino trato
E na margem a explosão mais sincera dos prazeres
Em teus olhos de verde-água doce
Cai de cabeça e fui nadar dentro de ti
Afoguei-me em tua história, fosse ela qual fosse,
E notei que em teu corpo, minha alma fundi
És a consciência viva de um deus africano
Mas a tua projeção carrega um traço germânico
E vejo que mesmo em teus movimentos mais mecânicos
Há um espaço de vida oceânico
No qual nadaria a perder de vista mais de um ano
Encanta-me a tua fala concisa e empoderada
Conforta-me o teu jeito meigo de tratar quem amas
Fortifica-me a tua existência gigante e inflamada
E me excita teu saber em agir na cama
Cada parte tua é Sol do mais brilhante
Cada toque é explosão atômica de gozo
E mesmo quando expurgas o que é, a ti, mais angustiante
Vejo em ti o retrato vivo de um ser tão maravilhoso
Como jamais havia visto antes
Espero que daquela noite de tempestade
Venham frutos firmes e adocicados como a tua fala
Pra que o choro, numa próxima, seja só de saudade
E pra que sejamos, um do outro, amuleto e mandala
Deixando para o quarto, cozinha, chuveiro e sala
E não mais para uma quase-vala
Todo o, não mais doloroso, mas prazeroso alarde.
(Arthur Valente)
sexta-feira, 15 de agosto de 2014
Dos Vômitos
O amor é como a morte
Não dá aviso prévio, nem alarde quando vai chegar
Entra sem bater, sem pudor
Traz consigo, juntos, o alívio e a dor
E oscila sensorialmente entre azar e sorte
Quando a morte se apresenta simbólica
Quando não é do físico, mas do emocional
Por exemplo
Mesmo com toda a carga melancólica
Não concebe o quão imensa e visceral
É a cólica
Causada pela dor de amor real
Que nos infla e preenche o corpo carnal
E que se assenta como a uma catedral
Ou um templo
Entre a morte e o amor
Há quem diga que a primeira é mais forte
Ao comparar o resultado de ambas quando abertos os cortes
Mas pensemos, pois, que a primeira, dependendo, vira suporte
Já o segundo, não sei se por rancor ou por esporte
Pode corroer a alma do portador
E mais que tudo isso
A morte, não sei se fim ou se início
Sabe que amar está além de seu próprio poder
Já o amor tão desejado
Se fizer do amante um maltratado
Acaba matando - simbólica ou literalmente - mesmo sem querer
(Arthur Valente)
Não dá aviso prévio, nem alarde quando vai chegar
Entra sem bater, sem pudor
Traz consigo, juntos, o alívio e a dor
E oscila sensorialmente entre azar e sorte
Quando a morte se apresenta simbólica
Quando não é do físico, mas do emocional
Por exemplo
Mesmo com toda a carga melancólica
Não concebe o quão imensa e visceral
É a cólica
Causada pela dor de amor real
Que nos infla e preenche o corpo carnal
E que se assenta como a uma catedral
Ou um templo
Entre a morte e o amor
Há quem diga que a primeira é mais forte
Ao comparar o resultado de ambas quando abertos os cortes
Mas pensemos, pois, que a primeira, dependendo, vira suporte
Já o segundo, não sei se por rancor ou por esporte
Pode corroer a alma do portador
E mais que tudo isso
A morte, não sei se fim ou se início
Sabe que amar está além de seu próprio poder
Já o amor tão desejado
Se fizer do amante um maltratado
Acaba matando - simbólica ou literalmente - mesmo sem querer
(Arthur Valente)
domingo, 20 de julho de 2014
Ponto Forte
Teus olhos furtivos me roubam a concentração
E me curam a afobação mesmo nos momentos mais agressivos
Deixando-me sempre a condição ininteligível
Que és em mim a própria substância da paixão
Sinto tua falta todos os dias
Falta da arte que és só por existir
Me apertas o peito, sem saber, nas noites mais frias
Contagia-me de poesia que, de ti, é elixir
E transborda lirismo sem usar de uma só caligrafia
Como se não bastasse, refletiu-me em verso
A partir de tua vista tão cautelosa
Ao exalar de tua pena o cheiro da mais doce rosa
Chamou-me de azul neste teu vasto universo
E agora, de modo inverso, devolvo-lhe a menção honrosa
Mas com a certeza que em minha vida teu ingresso
Não caberia na mais sublime prosa
Sinto apreço pelas tuas sutilezas escrachadas
Pelas tuas incertezas ponderadas
E pela tua encantada leveza
Atrai-me tua essência misteriosa
Tua paciência fervorosa
E tua caridosa inteligência
Coloco-me à tua disposição
Mais por necessidade que por opção
Mas quero que fiques à vontade
Pra reconhecer em tua sensibilidade
O quanto é válida essa nossa relação
E já digo, de antemão,
Que se queres saber a verdade
É que não há só uma tua parte
Que não seja inspiração.
(Arthur Valente)
terça-feira, 15 de julho de 2014
Dos Diálogos
Nada denuncia mais do que o olhar
Basta que as janelas se cruzem
Pra que as almas saltem de seu lugar
E se alcancem mutuamente num diálogo silencioso
Mas tão honesto que faz inveja tanto à língua
Quanto ao ato de falar
É pela curva dos olhos que fica mais perceptível
A forma com a qual o ser
Torna-se tudo o que tem capacidade
Para se tornar
A íris age como agente sensível
Mostrando o até então latente querer
Ao entregar sem resistência a verdade
Que de tudo fizera pra não se mostrar
Olhei o teu olhar no meu grudado
E não precisastes mais usar, da fala, um só recurso
Pois o que com ele me foi falado
Não alcançaria dizer nem o mais poético discurso
E falamos tantas vezes sem dizermos quase nada
Por horas escrevemos as mais sublimes confissões
Que saíam como expressivas projeções
Criadas por nossas almas apaixonadas
E exportamos todas as emoções
Sem que precisássemos fazer uso de qualquer linguística ensaiada
Entre nossas janelas agora se criou um elo
Tão fortificado e belo que não há no mundo
Corte suficientemente profundo
Que destrua o ligamento construído pelos gestos mais singelos
Não temos o que temer
Tampouco são nossas inseguranças carregadas de sentido
Confio que seremos, a nós, o melhor que pudermos ser
E que mesmo se um dia ficar o coração partido
Ainda assim encontraremos neste vínculo tão bem construído
A razão mais clara pra continuarmos a viver.
(Arthur Valente)
Basta que as janelas se cruzem
Pra que as almas saltem de seu lugar
E se alcancem mutuamente num diálogo silencioso
Mas tão honesto que faz inveja tanto à língua
Quanto ao ato de falar
É pela curva dos olhos que fica mais perceptível
A forma com a qual o ser
Torna-se tudo o que tem capacidade
Para se tornar
A íris age como agente sensível
Mostrando o até então latente querer
Ao entregar sem resistência a verdade
Que de tudo fizera pra não se mostrar
Olhei o teu olhar no meu grudado
E não precisastes mais usar, da fala, um só recurso
Pois o que com ele me foi falado
Não alcançaria dizer nem o mais poético discurso
E falamos tantas vezes sem dizermos quase nada
Por horas escrevemos as mais sublimes confissões
Que saíam como expressivas projeções
Criadas por nossas almas apaixonadas
E exportamos todas as emoções
Sem que precisássemos fazer uso de qualquer linguística ensaiada
Entre nossas janelas agora se criou um elo
Tão fortificado e belo que não há no mundo
Corte suficientemente profundo
Que destrua o ligamento construído pelos gestos mais singelos
Não temos o que temer
Tampouco são nossas inseguranças carregadas de sentido
Confio que seremos, a nós, o melhor que pudermos ser
E que mesmo se um dia ficar o coração partido
Ainda assim encontraremos neste vínculo tão bem construído
A razão mais clara pra continuarmos a viver.
(Arthur Valente)
terça-feira, 8 de julho de 2014
Contato e Improvisação
Agradecimentos à Larissa Neves - poetiza, musicista, escritora, atriz, roteirista, boniteza e futura historiadora - que me abriu os olhos pra essa vertente artística incrível. Gratidão :)
Corpos balançam em dança
São, primeiro, caricaturas de um elemento
Que mais parece entidade
São o próprio vento
Que num momento é tempestade
E em outro parece que amansa
Depois são amostra de rara leveza
E há algo sutil em seus jogos de olhar
Comunicam-se com demasiada destreza
E há certa ingenuidade latente que atiça
Pra depois ser malícia encoberta em véu sereno
E eis que paira sobre o ar
Como se fossem juntos uma só natureza
Uma atmosfera de beleza
Entre os doces venenos e as brutas carícias
Que não há quem não queira se entregar
À delícia
De sentir-se pleno ou plena
E de marcar a cena
Para si e para sempre
Em seu corpo terreno.
(Arthur Valente)
Corpos balançam em dança
São, primeiro, caricaturas de um elemento
Que mais parece entidade
São o próprio vento
Que num momento é tempestade
E em outro parece que amansa
Depois são amostra de rara leveza
E há algo sutil em seus jogos de olhar
Comunicam-se com demasiada destreza
E há certa ingenuidade latente que atiça
Pra depois ser malícia encoberta em véu sereno
E eis que paira sobre o ar
Como se fossem juntos uma só natureza
Uma atmosfera de beleza
Entre os doces venenos e as brutas carícias
Que não há quem não queira se entregar
À delícia
De sentir-se pleno ou plena
E de marcar a cena
Para si e para sempre
Em seu corpo terreno.
(Arthur Valente)
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