domingo, 17 de novembro de 2013

Arte em Conjunto - Frito e Cru


Cores fortes em fundo roxo
Visão mesclada e tonta em tons
Corpo leve e ombros frouxos
Dança a imagem como quase som

Mata virgem, experiente
Sintonia de ambiente
Que me rende ao ter vertigem
Pois desnorteia de tão bonita
E religa, pois transcende

E como grita a paz ao silenciar
A mente pouco antes barulhenta
Pela fisionomia violenta
Que a cidade tanto faz a vir
Por ela se manifestar

E como grita o mundo por arte
Se a arte o é, sem tirar nem por?
Muda-se a linguagem para expor
Como se cortássemos o sabor em partes
A la carte
Pra quem tem fome, e todos têm,
De beleza e de amor

Oremos só à mãe maior
Que ela se segure em pé
Contra a má fé de nossa torpe intervenção

Pois não fosse o que ela é,
Sendo em todo, em si, o melhor
Nós não seríamos, não
Nem eles algum dia serão


(Bárbara Lopes e Arthur Valente)

Recomendado: www.flickr.com/babilonia (Bárbara Lopes)

sexta-feira, 15 de novembro de 2013

Mudança de Script

Fecham-se as cortinas, intervalo
Saem todos, menos um
Muda a cena, zum-zum-zum
Vaza o velho pelo ralo

Entra o novo num segundo
Muda o mundo, fica a vista
Olha tudo como autista
Passa o ser a ser fecundo

Planta a praia, o vento, o sol
Colhe calma, amor e fé
Flui o íntimo como a maré
E pesca a paz sem ter anzol

Capoeira joga em dança
Luta, aprende e cai na areia
Pulsa o mar vermelho em veias
E cantarola a vida mansa

Desce do palco, vai pra rua
Usa e abusa a pele nua
Acha graça no ranzinza
Vai do cinza ao prata-lua

E renasce o protagonista
Ganha brilho e vivência
Vai e conquista experiência
Pra fazer da selva-de-pedra, pista
De malandro em essência
De poeta na potência
E com cadência de sambista.

Saravá!

Viva a vida!
Viva o maior do teatros que permite
A todos serem artistas
Pois só nela a história resiste
Sem precisar de roteirista.


(Arthur Valente)


quinta-feira, 31 de outubro de 2013

Arte em Conjunto - Magreza de Alma




Canseira da vida que morre
Depressão anda em alta
Magreza sofrida na alma
Sentido de calma corre em falta

Falta amor pra nutrir o ser
Falta o elixir que socorre a dor
Falta cor pra que me ponha a crer
Que não serei absorvida pelo mundo exterior
Ou, ao inverso,
Por meu profundo universo interior.

Verso em desenho
E me empenho, pois só peço
Que meu sofrer morra imerso
No fundo de esperança que ainda detenho.


(Ananda Trezena e Arthur Valente)

terça-feira, 29 de outubro de 2013

Aula de Biologia

Voa, passarinho
Beija a flor e traga o cálice
Pra servir de táxi ao poder criador
Que a mãe natura fornece no ápice
Invariável de todo o seu amor.

Vem semente, cai do alto
Mas vai longe do berço que lhe era, antes, tranquilo
Pois, se ficas perto da tua inicial protetora
Progenitora
Será ela a autora de tua morte precoce
Sem vacilo
Mas acalma-te, pois basta do esquilo
Uma enterrada entre longos saltos
E um desapego da posse
Que tua força encantadora resiste.

E vira agente da vida, sob a úmida terra
E até merda, em ti, virará poética
Para te adubar e te fazer ascender na mais perfeita estética
E continuar o ciclo caótico, mas ordenado em grandeza profética
Que, a não ser pelo bicho violento que porta a serra,
Nunca se encerra.



(Arthur Valente)

segunda-feira, 28 de outubro de 2013

Espelho Desgastado

O poeta é o mais burro entre todos os bichos
Pois, como o jumento, solta intermináveis urros de reclamação
E faz pouco de todos os nichos que habita
E se adapta
Pois é um eterno insatifeito consigo próprio
Ao mesmo tempo em que exalta a si mesmo e a todo o restante
Que alcança sua demente visão.

Aberração
Da contradição insensata que é viver como se fosse vocação
E se deixar pisar como se fosse barata
E é batata que vai morrer, mais dia ou menos dia,
Afogado em sua torpe mania de não saber lidar com sua efervescente
Indecente e vadia paixão.

É o inútil, inexato e inconstante
A mula que empaca ao ignorar o berrante
Brincando de alpaca ao cuspir de amor
E engasgar de dor num próximo instante.

Entediante por viver da rotina desregrada
Afinal, quem aguenta tanta mudança? Tanta esperança por nada?
Tanta vontade de ser criança encantada que por ter a mente ocupada
Numa frenética e caótica dança
Esquece-se de manter atenta ao fato de que não pode alcançar
Ao menos, não desta forma desordenada,
Mais do que seu braço alcança.

Assumo a imbecilidade.
Não me sigam, nem me ouçam.
Não sou nada além da vaidade do ser combinada
Às sensações abstratas que de mim se apossam.

Não sou inteligente, nem inteligível
Não sei sintetizar mais do que já me fora deglutido
Após tanta mastigação do que não pode nem ser crível
Nem ensinado, tampouco sabido.

Ouçam os pragmáticos e os cientistas
Pois de nada servem os idealistas sonhadores e empáticos.
São, como eu, os piores enganadores
Pois são, fazendo-se guerreiros, trovadores estáticos.

Apocalíptico sou mais por gosto, talvez
Que por desgosto de assistir ao declínio do concretismo
Cético e crítico, mas só com o que de fato sismo
Proletário, revoltado e revolucionário
Mas burguês.

Sou pau - de-virar-tripa! - pois já nasci torto e desendireitado
Indesejado até por quem diz me amar
E vivente afinco, todo o dia, quase morto
Ativo e invariavelmente cansado.

Assim sou e já aviso pra não haver mais enganação
E só não peço perdão porque, como se não bastasse, por fim
Sou também mal-educado.


(Arthur Valente)

sábado, 26 de outubro de 2013

Dos Registros

Passei
Despassado, mas gritante
E intenso
Como samba-enredo

Parei
Determinado a deixar-te
Cantante mesmo em silêncio
De sempre e desde cedo

Saltei
Ao topo da felicidade
Num instante, de azedo
Fiquei doce, por ti cercado

Versei
Em teu grimório abençoado
Como amante apaixonado
Pra que mesmo se distante,
Talvez infelizmente
Penso que mesmo se acabado
Nosso pulsar por agora enlaçado
Estarei aqui escrito e registrado
Contente, mesmo se triste
E presente
Mesmo se passado.


(Arthur Valente)

quarta-feira, 16 de outubro de 2013

Pelo Privilégio Público

Chorei ouvindo um tal Chico
Pela voz, pelo poema
Mas mais pela lembrança
De uma tão doce infância
Que me serve de emblema
Ao compará-la aos atuais problemas
Com os quais tanto implico
E notar que, num paradoxal dilema,
Fui e sou, apesar do furo colossal nas finanças,
Comparado aos mais pisados pelo sistema
Muito rico

Pois, privilegiado sou ao ser vivido
De conhecimento aprendido sendo ou não estudado
Numa terra de perdidos e lesados
Por seus presentes e por seus passados,
E mais ainda por seus empregos desafortunados
E por suas fortunas de ouros perdidos,
Falidos e roubados

Assumo meu amor, meu desejo
Pela cor verde que ao passar, vejo
E digo, pois, que de tão linda
Vem-me remediar o fraquejo
E manter-me são
Porém, reconheço que, apesar do ser não ser só de pão
Esse, quando falta, mata a sanidade
E coloca o íntimo abaixo do cão

Portanto, devo dizer, em verdade
Que deste não grito a necessidade
Ao menos não ainda
Como em muitas mesas dos campos e das cidades
Sedentas e jogadas à falta de opção
Contrastando a terra mesma de Oxum encharcada
E da seca depravada que mutila a gente coitada
Do sertão

Tenho sorte de estar, agora,entre os coqueirais nutridos
Mas, ao olhá-los, encontro seu histórico ambíguo
Pois carregam bacias de sangue
Sob a areia
Sangue este deixado por artérias e veias,
Bebido e tristemente degustado
Pela miséria feia
Que afronta e massacra entre guetos e cadeias
Principalmente os de pele mangue

Abençoado sou, há quem diga
Mas peço atenção
A esta ensinada e propagada expressão
Aos desnutridos de corpo e de coração
Que a bênção só será quando for por todos conseguida
E quando não mais houver esquecimento divino
Acerca do brejo

E por conta da percepção à qual me inclino
Grito de dor aos meus pobres irmãos
De amor e de comida
Para que a mão de punhos cerrados
Seja finalmente erguida
E daí, em pública condenação,
Caem os privilégios.


(Arthur Valente)