segunda-feira, 12 de março de 2012

Enquanto for...



Seja o tempo enquanto for
Seja pressa
Seja inversa
Seja o homem corredor

Seja a fome enquanto for
Seja Pobreza
Seja Avareza
Seja a falta de sabor

Seja Deus enquanto for
Seja arrogância
Seja ganância
Seja o véu do mal-feitor


(Arthur Valente)

sexta-feira, 17 de fevereiro de 2012

Incoerências





O padre reza
O padre enfeza
A criança indefesa
Que não quer mais rezar

O pastor caça
O caçador ameaça
As ovelhas que de pirraça
Não querem mais se alinhar

O homem morre
Porque de homem gosta
E o pastor aposta
Na palavra do padre falador
Que disse que quem falou
Pra atirar no Homo de costas
Foi o próprio Senhor


(Arthur Valente)

segunda-feira, 13 de fevereiro de 2012

Visão



A verdade diz ser pura
Mas discordam quando dói
A mentira é atadura
Que quando descoberta, corrói

O céu é de bondade
Mas chato e tedioso
Já o inferno, em verdade
É frio e tenebroso

O bem é lindo e nobre
Porém, ingênuo e complicado
Enquanto o mal que é feio e pobre
É mais fácil de ser usado

A beleza da rosa é imponente
Mas morre ao fim do dia
Já o cacto que é resistente
É seco e sem alegria

Quando tudo parece perdido
E a opção tampouco existe
Não se faça abatido
Crie mais, não se limite.

(Arthur Valente)

domingo, 4 de dezembro de 2011

Vagalumes




Na imensidão do horizonte
Eis que vejo sob a bruma
Tão leve quanto pluma
Algo vem de trás do monte

Destaca-se no escuro
Dançando em tom de claro
Sem limite de anteparo
Tão pequeno e seguro

Porém, de repente
Observo com atenção
Parecia reunião
Poderosa e abragente

E um ponto quase nada
Vem tornar-se um clarão
Luminosa multidão
Uma quase alvorada

E o mais interessante
É que o certo perdeu vez
O escuro se desfez
Por rebeldes tão brilhantes.

(Arthur Valente)

quinta-feira, 24 de novembro de 2011

Esclarecimento




Pergunto-me com frequência
Não sei se por insegurança
Até onde minha ideia alcança?
Será que faz diferença?

A indagação me perturba
Me faz rolar a noite inteira
Será minha ideia passageira?
Simples fruto de uma mente desturba?

Percebo que não vou dormir
Caminho até a sala para pensar
Eis, então, que ouço me chamar
Uma voz estranha a grunhir

A voz me diz calmamente
Pra não mais me preocupar
E se põe a discursar
Faz-se muito convincente

Diz que entende o meu penar
Porque todo o poeta é carente
Quer ser ouvido pela gente
Mesmo que venham para criticar

E então ponho-me a perceber
Que não posso temer ser esquecido
Tenho que lutar pra ser ouvido
Mesmo que seja só após morrer.

(Arthur Valente)

terça-feira, 25 de outubro de 2011

Soldados


A farda nos camufla
Camufla a nossa essência
Um exército que marcha
Pela autoviolência

Todos robotizados
Por padrões preconcebidos
Animais aprisionados
Ideais já tão falidos

Preconceitos ensinados
São, por nós, aprendidos
Depois são repassados
E no sangue diluídos

Marionetes somos nós
Manipulados por bandidos
Se soltamos clara voz
Por ninguém somos ouvidos

Mas quando a verdade vier
E as armas forem ao chão
O sol vai se abrir
Far-se-á a revolução.

Esqueceremos então quem fomos
Todas as trevas irão padecer
Seremos tudo que nós somos
Não o que nos mandaram ser.


sábado, 24 de setembro de 2011

Tédio



A tarde voava
O dia tão cinza
Frisava, ranzinza
Que o céu chorava

Chovia eu, também
Alma cansada
Quiçá disfarçada
Nem sei de quem

E lá fora, fumaça
Trapaça do tempo
Tudo mais cinzento
Frio que não passa

Tédio, apareça
Dia obscuro
Caiu de maduro
Na minha cabeça

Mas vale o momento
De desatenção
Montar a visão
Poetizada do tempo.

(Arthur Valente)