Chorei ouvindo um tal Chico
Pela voz, pelo poema
Mas mais pela lembrança
De uma tão doce infância
Que me serve de emblema
Ao compará-la aos atuais problemas
Com os quais tanto implico
E notar que, num paradoxal dilema,
Fui e sou, apesar do furo colossal nas finanças,
Comparado aos mais pisados pelo sistema
Muito rico
Pois, privilegiado sou ao ser vivido
De conhecimento aprendido sendo ou não estudado
Numa terra de perdidos e lesados
Por seus presentes e por seus passados,
E mais ainda por seus empregos desafortunados
E por suas fortunas de ouros perdidos,
Falidos e roubados
Assumo meu amor, meu desejo
Pela cor verde que ao passar, vejo
E digo, pois, que de tão linda
Vem-me remediar o fraquejo
E manter-me são
Porém, reconheço que, apesar do ser não ser só de pão
Esse, quando falta, mata a sanidade
E coloca o íntimo abaixo do cão
Portanto, devo dizer, em verdade
Que deste não grito a necessidade
Ao menos não ainda
Como em muitas mesas dos campos e das cidades
Sedentas e jogadas à falta de opção
Contrastando a terra mesma de Oxum encharcada
E da seca depravada que mutila a gente coitada
Do sertão
Tenho sorte de estar, agora,entre os coqueirais nutridos
Mas, ao olhá-los, encontro seu histórico ambíguo
Pois carregam bacias de sangue
Sob a areia
Sangue este deixado por artérias e veias,
Bebido e tristemente degustado
Pela miséria feia
Que afronta e massacra entre guetos e cadeias
Principalmente os de pele mangue
Abençoado sou, há quem diga
Mas peço atenção
A esta ensinada e propagada expressão
Aos desnutridos de corpo e de coração
Que a bênção só será quando for por todos conseguida
E quando não mais houver esquecimento divino
Acerca do brejo
E por conta da percepção à qual me inclino
Grito de dor aos meus pobres irmãos
De amor e de comida
Para que a mão de punhos cerrados
Seja finalmente erguida
E daí, em pública condenação,
Caem os privilégios.
(Arthur Valente)
quarta-feira, 16 de outubro de 2013
terça-feira, 1 de outubro de 2013
Semi-Deusa
Uau! Que belo desenho vivo!
Olhei teus traços e segurei o queixo já caído
E o coração, por empenho, disparado
E por tão extasiado ao reconhecer teu ser engrandecido
Peguei-me reflexivo e maravilhado
Ao imaginar teu esboço estético
Sendo planejado, construído, trabalhado e lapidado
Por seres proféticos, providos do invisível idealizado
E que, penso, queriam contigo
Deixar registrado
Uma verdadeira arte caminhando
Entre os simples e humanos arquétipos
Sendo o teu sorriso tão incrível
E mesclado com maestria e cuidado
Às tuas sardas e aos teus olhos apertados
Mas dotados do traço mais expressivo
E teus cabelos encaracolados
Que de tão magistralmente delineados
Seriam considerados, se atentados fossem,
Subversivos
Mas não sei bem qual é a tua entidade mãe. Ou pai
Porque tua cor denuncia uma filha de Tupã
Mas de teu sorrir, abre-se, da alma, o apetite
E eis, então, que Afrodite sai
Porém, em tua pele macia em critério sinto Oxum e Nanã
E do teu jeito mistério, Iansã grita
Bradando a chuva do ser que instiga e cai
Já de teus beijos molhados, bem dados
Sinto a explosão do dionisíaco
Que me faz correr pelo paradisíaco
Nu de essência e sossegado
Enquanto o mundo cru que roda ao lado
Parece, em tua cadência, ter parado
E ai, me vens com tuas obras fantásticas
E perco meu ar ao notar
Tua sensível habilidade
De entender o que dizem os olhos a vagar
Espalhados e gritando o inaudível
Pela torpe cidade
E ainda, de querer reproduzi-los para as artes plásticas
Num jeito próprio que me invade e conquista
E ponho-me, a eles, como autista
Pois me fazem querer não parar de olhar
Tu és a beleza que de tão majestosa
Quase me persuade a crer que é criada
E, pela própria natureza grandiosa
És também criadora das mais talentosas
E encantadas
Não falei de teus lábios, nem de tuas pernas
Porque, num senso que acho ser sábio
Se falasse de ti por inteira
Esta versada brincadeira seria eterna
Digo só, por fim
Que, por mim, continuo a contemplar-te
E tocar-te se, quando e como for possível
Pois do néctar que és, como arte, estou passível
Ao sentir sede, quando longe, num desejo intensamente incerto
E ao me embriagar, em cada tua parte,
Quando perto.
(Arthur Valente)
quinta-feira, 26 de setembro de 2013
Autocrítica ao Todo
Acho graça nos radicais sectários
Pois fecham a si mesmos
Em seus imutáveis ideais
Encondendo-os sob um véu arbitrário
Guardando suas jóias atemporais
Seus pedestais
Em intocáveis e ilhados armários
E os vejo gritando e brigando
Pelo alimento do ego
Mascarando o Devir em traje chato
E insensato
Dado que, como dividir o pão,
Degladiando-se ainda pelo prato?
Procuram o ideal na pureza
Pra que emerja como se fosse divino
E entram em conflitos contínuos
Desprovidos de clareza
Perdidos em seus dogmas
E desígnios
Como a plebe de discurso falido
Voltando-se ao ar de nobreza
Pois, se posso opinar
Descarto a pureza imposta
Ao encontrar a verdadeira grandeza
Na mistura
Como ao poeta que é branco na crosta
Mas no núcleo de ser
Veste-se em pele escura
Escrevendo o que da alma brota
Inteligível só pela busca do ascender
Da língua
Mas mais belo pelas rasuras
Pela míngua de frieza, de pudor
E mais sábio por se deixar criticar
Que desfrutemos do nosso livre sonhar
Em sublime e apaixonada aspiração
Mas lembremos que o caminhar
Só será evolução
Quando nos propusermos a ouvir
E aprender com a dita outra visão
E que só pode ouvir quem espera o falar
E que dar atenção é querer progredir
E que progressão social é amar
A imperfeição do viver
Atentando-se à beleza do criar
E, enfatizo, do servir
Sem ser servo, nem barão
Sem presunção de antever
O que ainda não se sabe se será
Mas num aglomerado de respeito
E abertura
Pra se encontrar a união das conjunturas
E dos sujeitos
Construindo, a despeito do ultrapassado
A Revolução
Para o que há muito se tem lutado
E que sempre deve ser lembrado
Sendo acesso ilimitado e compaixão
Chega de querer liberdade
Pela segregação
Viva a individualidade sim!
Mas só se chega ao fim
Na concepção de Marx a Bakunin
Pela cooperação.
(Arthur Valente)
segunda-feira, 23 de setembro de 2013
Às Mudas Arrancadas
Vi o pútrido representado pela inocência
De quem perdeu, de cedo, a confiança
Vi os choros mudos de carência
Bradarem, em coro, a violência
Sofrida na infância
Não vi seus rostos, mas suas almas
Grandiosas como só as de criança
Diminuídas pela matança
De sua ingênua e livre calma
Prenderam-nas no mundo do cinza
Onde o choro não sai e o tempo não para
Onde uma vez só dor vem e não sara
E onde o exemplo de maldoso faz cara
Tão monstruosa e profanadora quanto ranzinza
Chorei por elas todas e pelo resto
Pois não tentem convencê-las do amor quando já crescidas!
Depois das marcas, tão profundas feridas
Que lhes deixaram o semblante indigesto
Nada lhe passou a ser mais nefasto do que nós
A voz do futuro se cala em traumática vergonha
Pois mostraram-lhe que anda, por aqui, só
Cercada de exceções regradas e medonhas
Como vai este futuro
Poder um dia desfrutar do dionisíaco
Se lhe mostraram o que chamamos, em geral, paradisíaco
Como a uma cela infernal de medos
Cercada de muros?
Peso-me por elas e por todos
Pois nosso lodo é mais espesso
E nossa moral concreta em gesso
Nossa não, perdão
A moral a qual somos avessos, por imposição
Prova a cada dia que não só passara da idade
Mas que não serve nem de rodo, nem de balde
E assim ganha o lodo mais densidade
E afoga-nos em desumanização.
(Arthur Valente)
De quem perdeu, de cedo, a confiança
Vi os choros mudos de carência
Bradarem, em coro, a violência
Sofrida na infância
Não vi seus rostos, mas suas almas
Grandiosas como só as de criança
Diminuídas pela matança
De sua ingênua e livre calma
Prenderam-nas no mundo do cinza
Onde o choro não sai e o tempo não para
Onde uma vez só dor vem e não sara
E onde o exemplo de maldoso faz cara
Tão monstruosa e profanadora quanto ranzinza
Chorei por elas todas e pelo resto
Pois não tentem convencê-las do amor quando já crescidas!
Depois das marcas, tão profundas feridas
Que lhes deixaram o semblante indigesto
Nada lhe passou a ser mais nefasto do que nós
A voz do futuro se cala em traumática vergonha
Pois mostraram-lhe que anda, por aqui, só
Cercada de exceções regradas e medonhas
Como vai este futuro
Poder um dia desfrutar do dionisíaco
Se lhe mostraram o que chamamos, em geral, paradisíaco
Como a uma cela infernal de medos
Cercada de muros?
Peso-me por elas e por todos
Pois nosso lodo é mais espesso
E nossa moral concreta em gesso
Nossa não, perdão
A moral a qual somos avessos, por imposição
Prova a cada dia que não só passara da idade
Mas que não serve nem de rodo, nem de balde
E assim ganha o lodo mais densidade
E afoga-nos em desumanização.
(Arthur Valente)
sábado, 14 de setembro de 2013
Aos novos jesuítas
Começo este trecho amargurado com o espírito às avessas
Porque me torturo ao querer me sentir amado
E amo tanto que me pego dançando em ódio árduo
Sendo eu, pela vida, um completo esfomeado
Ansioso e cansado a ponto de quase meter-me um tiro na cabeça
Ah... Que bom não estar armado... Mesmo não sabendo se o jargão é por questão de real defesa Ou só acostumado a ver a vida como superação
Única frente ao que chamamos de incerteza
Ah... Que bom não estar armado... Mesmo não sabendo se o jargão é por questão de real defesa Ou só acostumado a ver a vida como superação
Única frente ao que chamamos de incerteza
Mas, bom, o que seria do humano, senão a eterna contradição?
Onde um republicano apaixonado resgata,
Num discurso recatado
A fome, do desalmado, de ser cidadão
Pra depois, já tronado e com nome
Descarado, meter-se a dar ordenação
Como um rei auto-intitulado
Sendo , assim, mais um despótico renomado
Por academias de alienação
Por academias de alienação
E ai me pego entre os conflitos da dialética histórica
Pois são tantos os pontos cegos e os de vista
E creio que me intelectualizo cotidianamente
Pra vomitar, em seguida, numa poética retórica
Vinculada pelo ego e pela eufórica mente
Que se engana ao se ver como lógica Pois nega de si mesma o poder dissidente Que vem da ótica do crente Junto à interpretação realística, Mas relativista e metafórica Como é mesmo o mundo e a gente.
Que se engana ao se ver como lógica Pois nega de si mesma o poder dissidente Que vem da ótica do crente Junto à interpretação realística, Mas relativista e metafórica Como é mesmo o mundo e a gente.
E ai, bom, sou burro, disso sei
E quanto mais vejo que li, o que estudei
Mas me repito em citações daqueles que não conheci
E mais almejo caminhos por onde mal ou nunca passei
Posso dizer que vivi, e que um dia morrerei Mas, perdão, meu saber concreto para por ai E há de haver ainda quem contradiga estas às quais nomeio Como leis Porque sempre há de haver quem seja contrário
Que bom, assim somos todos vigários aflitos Que deixarão filhos e escritos Para a próxima leva de revoltados proletários Neo-libertários de urros e gritos Acumuladores de vocabulário burguesado Ou bibliotecários exaltados e sem formação
Posso dizer que vivi, e que um dia morrerei Mas, perdão, meu saber concreto para por ai E há de haver ainda quem contradiga estas às quais nomeio Como leis Porque sempre há de haver quem seja contrário
Que bom, assim somos todos vigários aflitos Que deixarão filhos e escritos Para a próxima leva de revoltados proletários Neo-libertários de urros e gritos Acumuladores de vocabulário burguesado Ou bibliotecários exaltados e sem formação
Ou faremos revolução, como bichos, como burros
Pra que os próximos caminhem sem montar
Em seus próprios irmãos
Pra que, otimizando o especular,
Entre estes tais urros de libertação Aprendam, como deveríamos, em primeira mão Que instruir a socialização Nada mais é que amar.
Pra que, otimizando o especular,
Entre estes tais urros de libertação Aprendam, como deveríamos, em primeira mão Que instruir a socialização Nada mais é que amar.
Fim do sermão.
(Arthur Valente)
(Arthur Valente)
quarta-feira, 11 de setembro de 2013
Um Daqueles Subjetivamente Objetivos
Por que amo? Por quê?
Por que sinto que quero perto?
E deixo que venha a dor ao ser discreto
Pois quero, o que não posso dizer?
Por que clamo por prazer?
Eu sei, somos íntimos,
Mas pra quê?
Se mal me deixa chegar em teu ser
E me intimido, de forma que me apresso
A finalmente te ter.
Sem sucesso e com tentativas inexatas
Perco-me em cantadas baratas
E promovo sugestões insensatas
Na vontade inapta de te ver derreter
E como queria que fosse minha
Não, não! Mentira mesquinha. Perdão
Queria que fôssemos um só no colchão
E que víssemos, juntos, o dia renascer
Sem pressão de ser
Nem de obrigação
Mas só por satisfação
De saber que fomos e somos
Sendo o todo, nós, serão
O verão mais caloroso
Que o amor já viu nascer
Ave, merecer!
Salva-me da mercê,
Pois ponho-me em tua mão
E de teu coração
Nada espero, mas tudo quero
Bater.
(Arthur Valente)
(Arthur Valente)
terça-feira, 3 de setembro de 2013
Ao filósofo boêmio canino
Sinto-me como um velho sábio
Ancião de memória
Mas sou tão novo de história
E de glórias, diga-se de passagem,
Quanto aos mais novos de minha geração
Aos quais reconheço, mesmo que avesso
Em certa ocasião,
A reflexão de minha própria imagem
Pois sou um pão francês
Em meio ao que estupidamente nomeio
De pães de mês
Mas, ora, que enganação
Pois quando nos passarmos à mão do freguês
Sem coração
As diferenças em nossas essências
Serão apenas objetos de apreensão
Pra decidirem a quem comerão primeiro
E seremos mastigados, deglutidos
Digeridos e em ação descomidos
Pela nossa própria desunião
Sou um chão de bagagem
Mas, pesado em meu próprio peso
Um animal pobre e indefeso
Crendo manter em si preso
O novo de mutada linhagem
Êta, molecagem! Êta, afobamento!
De querer ser homem por ter tantas primaveras
Pré-designadas como amadurecimento
Em quase todas as esferas
Num sistema de ensinada vassalagem
Não exatamente como antigamente era
Talvez mais inteligente seja esta
Subliminarmente mais severa
Mais convincente
Ah... Que pena do mundo!
Que pena de mim, da gente
Que pena que a humanidade
Contenta-se em ser demente
Por crer em diabos fecundos
Travestidos de celibatários cristãos
Enquanto chama de moribundo
Quem tem carência de opção
Às ladradas do cão, meu uivo descamba
Por querer barulho
E faço tal homenagem ao irmão de samba
De renovação e de bagulho
Pra que não nos calemos
Pois, pequenos, ah, não! Não somos
Somos inteiros Axé
Fé e inspiração
Paixão pela luta e pela reconstrução
Somos, meu querido barão da ralé
Um realismo místico
Entre outros ismos artísticos
Somos galliardismo
E bem sabes o que isto é
Em ascensão.
(Arthur Valente)
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